Segunda-feira, 1 de Março de 2010

O TRAMBOLHÃO

1. Esta semana aprendi o quanto é fácil contentar o Tuga: uma queda em directo e temos o país a reluzir de felicidade, a estrebuchar de contentamento, a esquecer a crise, o défice, o orçamento e, sobretudo, a pequenez que, somada, leva confrangedoramente a este estado alarve ao qual nos fomos placidamente acomodando. Ao ter caído no programa da SIC, ÍDOLOS, levei a casa de cada um de nós um pouco de esperança, de luz, da ambição há muito perdida. Ainda coçando a careca que embateu no chão, e sob os holofotes cáusticos do povo de gengivas abertas, já eu me apercebia de que a miséria humana dos outros leva cada qual a sentir-se maior e mais poderoso ainda que por breves instantes. Valha-nos a net, o Youtube, o Facebook e afins, para podermos resfolegar de contentamento numa espécie de masturbação colectiva, de ejaculação de boçalidade primitiva há muito contida, vezes e vezes sem conta. E o país lá foi, cabisbaixo e remoído dos salários baixos e da vida de miséria de cada um, prostrar-se face ao ecrã e rever vezes sem conta a queda que, se de física pouco teve, de simbólica muito expressou. Assim, enquanto os ‘jornais’ ecoavam a dita, e nos telejornais teve a mesma honras de fecho, cada qual recolhia do frigorífico as sandes de porco, o garrafão da despensa, os cigarros contados e o whisky há muito a pedir para ser engolido, para se compenetrar naquela visão idílica de me ver tombar num regozijo transcendente de espasmo só dado às plebes em fúria. E de repente Tugal revelou-se: este é o mesmo sentimento que reunia em autos-de-fé a turba sedenta no Terreiro do Paço, a massa ululante medieva que esquartejava o que de mãos atadas lhes era atirado, espectadores dum circo em que são eles as bestas e não os animais que atiçam. Se eu soubesse o quanto era fácil fazer feliz este país, há muito me teria atirado para o chão. Em nome da Pátria.

 

2. O simbolismo do meu trambolhão é muito mais do que aparenta à superfície: é a revolta dos infelizes sobre os outros, a certeza de que quem tem sucesso não escapa às leis da física, como tantos deviam julgar, mas, sobretudo, é a metáfora do ‘poder’ que se espalha desamparado no chão. Eu sei o quanto represento para os que amam ou odeiam o que faço. Mas numa coisa ambas as facções convergem: eu faço. E quem faz, ou quem faz bem, é duplamente invejado. Se fizer bem durante muito tempo, a inveja transforma-se num ódio calado que explode ao mais pequeno rastilho. Não foi a obra que caiu, porém. Apenas o obreiro. Mas isso já garante à multidão espaço para expandir o que durante tanto tempo reprimiu. E a net, onde todos aparentam ser iguais, é apenas o espelho da realidade: quem tem tempo para fazer grupos de amigos onde se partilham imagens de presidentes-de-câmara-a-baterem-com-a-testa-em-umbrais, ou artistas-que-se-espalham-em-fossos-de-holofotes, não pode ter uma vida muito interessante. É que aqui também a lei da física se aplica: não é possível alimentar grupos bacocos sem desleixar algo de fundamental: Viver. É um ciclo vicioso sem fim porque quem faz continua a fazer e quem divaga sobre quem faz acumula um ranço que se nota na pele, uma espécie de abstinência forçada de sexo que é sublimada para nicks pomposos cathysexy76@genio.pt ou methegood@idiota.com. E lá prosseguirá o auto-de-fé pelas curvas da net enquanto no andar de cima a vizinha preferiria que o internauta lhe saltasse para cima. Mas ele está muito distraído a postar frases que julga serem do Gabriel Garcia Marquez e a devorar coiratos, enquanto pesquisa tombos, malhos e encontrões pelo infinito emaranhado das redes sociais que de social pouco tem.

 

3. No meio de tantos clicks de ratos, lá vai o meu nome catapultado para os tops dos motores de busca e isso sempre foi muito bom. É que tenho trabalho para apresentar, um disco para lançar a 12 de Abril, Obrigado. E o single, “Fazer o Que Ainda Não Foi Feito” já bomba nas rádios. Peço desculpa pelo sucesso que tenho e pelo dinheiro que faço, mas a realidade é que a inépcia dos outros é uma das minhas melhores ferramentas de trabalho, a mediocridade instituída um óptimo espaço para fazer realçar talentos que eventualmente possa ter e a preguiça dos enguiçados um lugar incrível para quem tem obra feita. Só não cai quem rasteja, quem julga que está de pé e comete esse fatal erro de perspectiva. Ninguém cai do sofá, do teclado do computador, e do chão para o chão não há distância alguma. É que para cair  no palco da Final dos ÌDOLOS, é preciso estar lá. Estão a topar a ironia? J

 

Pedro Abrunhosa

 

 

Porto, 13 de Fevereiro de 2010

publicado por Um_Tuga_no_Mundo às 17:09
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